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A globalização excessiva e os fatores externos que impactam o mercado de Saúde no Brasil

Marcelo Mansur, presidente da Nortec Química

A globalização cresceu pelo mundo todo da década de 1950 até a crise financeira de 2008. Desde então, ela vem sendo reavaliada e até freada, especialmente em países desenvolvidos. Isso ocorre na medida em que os ganhos do aumento na globalização tornam-se menos relevantes frente aos custos. É importante entendermos essa relação de custo-benefício, pois ela passa a ser cada vez mais relevante para o Brasil e para o seu Complexo Industrial da Saúde, particularmente na indústria de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs). 

Os ganhos de um nível adequado de globalização são provados e incontestáveis. A especialização de uma nação em uma determinada indústria traz ganhos sociais e crescimento econômico para um país que busca seu desenvolvimento. A redução de custos que isso acarreta traz maior acesso a essas tecnologias pelo mundo afora e incentiva competição e inovação. Permite também que cada país possa se especializar naqueles segmentos para os quais tem maior vocação. Isso cria um ciclo de crescimento em conjunto e, teoricamente, melhores relações internacionais.

Já é consenso, porém, que existe um limiar em que a globalização se torna excessiva. Custos logísticos aumentam com o preço de combustíveis, além do impacto ambiental dos transportes de longa distância. Relações políticas cada vez mais estremecidas levam países a avaliar vulnerabilidades perante rivais, como no caso da União Europeia e sua dependência do gás russo. Vemos também que, para garantir baixos preços, alguns países forçam seus trabalhadores a “pagarem um custo social” com baixos salários e ausência de direitos trabalhistas.

Isso nos traz à indústria de IFAs no Brasil, que chegou a ter 55% de abastecimento do consumo nacional na década de 1980 para hoje corresponder a menos de 5%. O Brasil depende, quase inteiramente, de importações, particularmente da China e da Índia, e isso cria uma vulnerabilidade típica da globalização em excesso. É um movimento natural, mas que agora precisa ser corrigido para que o País não fique sujeito a flutuações externas.

Vimos nos anos recentes, na China, por exemplo, a iniciativa apelidada Blue Sky, em que o governo chinês decidiu, sabiamente, exigir um maior rigor ambiental de suas indústrias. Isso levou à interdição ou fechamento de mais de um terço da indústria farmoquímica chinesa. Na sequência, tivemos a pandemia, trazendo os lockdowns (que seguem ocorrendo na China) e sufocando a logística mundial. Agora temos a guerra entre Rússia e Ucrânia, o aumento do preço de combustíveis, e o risco de sanções ou conflitos se estenderem para além da Europa Oriental.

Quando passamos por um momento de excepcionalidade, sempre buscamos superar as dificuldades, almejando a luz no fim do túnel. Porém, é hora de entendermos que as excepcionalidades são permanentes – apenas iremos de uma para outra, com cada vez mais raros momentos de estabilidade.

É por isso que precisamos corrigir essa vulnerabilidade na importação de IFAs. É uma questão de mitigação de risco público e empresarial assegurar um fornecimento nacional de moléculas essenciais, e garantir a existência de uma indústria que consiga assumir o abastecimento em casos excepcionais. Ter uma farmoquímica nacional salvou milhares de brasileiros durante a pandemia, mantendo o abastecimento de Midazolam para intubações por covid-19, por exemplo.

No dia 24 de fevereiro de 2021, Joe Biden assinou uma ordem executiva sobre as cadeias de fornecimento dos Estados Unidos, exigindo uma avaliação de risco e plano de ação para manutenção do abastecimento nacional. Os três primeiros itens na ordem foram semicondutores, baterias de alta capacidade e minérios. O quarto e último foi medicamento e IFA, pois os americanos passaram por movimento similar ao do Brasil nessa indústria.

Com parceria entre a indústria farmoquímica e a farmacêutica no Brasil, é possível realizarmos desenvolvimentos e investimento s em conjunto. É cada vez mais essencial o entendimento de que a produção nacional representa uma mitigação de riscos e um investimento na estabilidade e continuidade do fornecimento de medicamentos que salvam vidas. Já existem exemplos de parcerias sustentáveis e exitosas, que não apenas garantiram cadeia de fornecimento, mas garantiram acesso e salvaram vidas em momentos de ruptura nas importações. Com isso, evitaremos a globalização excessiva e construiremos um Complexo Industrial da Saúde capaz de suportar os desafios que certamente virão no futuro.