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Cadeias Globais e Regionais de Suprimentos: Impactos para os segmentos da Química Fina

Ao contrário do que muitas vezes se supõe, uma cadeia global de valor é muito diferente de uma cadeia global de produção. Esta é constituída por etapas consecutivas realizadas em diferentes países para a produção de um bem ou serviço final, havendo total independência entre as empresas que compõem suas etapas, pois as transações acontecem em mercados internacionais fortemente competitivos.
Já na cadeia global de valor, há uma empresa que comanda a cadeia produtiva, a empresa líder, geralmente estabelecendo requisitos específicos que devem ser cumpridos em cada etapa do processo produtivo pelos fornecedores estrangeiros.

A (enorme) vantagem econômica da cadeia global de valor é que, ao direcionar a produção dos fornecedores, a empresa líder consegue produzir um bem ou serviço mais valioso, o que reverte em maior lucratividade não apenas para si, mas também para os seus fornecedores, comparando com o caso em que estes fornecedores produzissem bens padronizados para o mercado internacional. O ponto importante aqui é que, nesse caso, a identidade de cada empresa que participa da cadeia global de valor é muito relevante, uma vez que identificar os fornecedores capazes de atender aos requisitos desejados leva tempo.

Para complicar as coisas, ao envolver, em uma relação individualizada, empresas em países diferentes, as possibilidades de obter garantias contratuais efetivas são remotas, em razão das diferenças nos ambientes legais. Isso faz com que as empresas líderes recorram aos chamados contratos relacionais, ou seja, contratos firmados em termos vagos, sem especificar quantidades e qualidade do insumo, fortalecendo a relação com o fornecedor por meio de incentivos tais como a transferência de tecnologia, de crédito ou assessoria técnica. A relação nas cadeias globais de valor é sempre uma relação em mão dupla, que demanda bastante das empresas líderes.

Obviamente, tudo isso envolve riscos de conflito ao longo da cadeia, especialmente quando mudanças nas circunstâncias que envolvem as transações não podem ser corretamente avaliadas pela empresa líder. Não é por acaso que os dados mostram um crescimento mais lento das cadeias globais de valor depois da crise de 2008, ainda mais depois da pandemia e com a guerra comercial entre Estados Unidos e China. Mas qual a relação da indústria química fina brasileira com isto?

A indústria química fina brasileira e a crise das cadeias globais de valor

Alguns economistas e jornalistas têm concluído apressadamente que essa situação é favorável para um reposicionamento da indústria brasileira nas cadeias globais de valor. É notória a participação do Brasil majoritariamente nas etapas iniciais dessas cadeias, exatamente aquelas que capturam a menor parcela do valor criado. Infelizmente, as coisas não são tão simples assim. Novamente, há aqui um grande desconhecimento da natureza das cadeias globais de valor.

Em primeiro lugar, como foi dito antes, a identificação de um fornecedor capacitado para a cadeia é custosa, o que dificulta substituições rápidas. Em segundo lugar, estudos do professor de Harvard Pol Antràz mostram que a localização de uma etapa de uma cadeia global de valor em um país não depende apenas da capacitação do fornecedor, mas da localização dos fornecedores a montante e a jusante na cadeia. Exemplificando: uma empresa líder dificilmente vai escolher um fornecedor no Brasil, se a empresa que o antecede na cadeia está em Taiwan e a empresa que o sucede está em Xangai.

Além disso, as empresas que mais se apropriam do valor gerado na cadeia em geral se encontram nas etapas finais. Nestas, as empresas dos países desenvolvidos têm uma forte vantagem competitiva: não apenas o custo de transporte se reduz (está demonstrado que o custo de transporte tende a ser uma parcela do valor do produto para bens de elevado valor agregado), como elas dispõem de oferta de trabalho de elevada qualificação, essencial nas últimas etapas.

O que fazer, então, com relação à indústria da química fina? Respeitando a diversidade tecnológica do setor, algumas realidades têm de ser reconhecidas. Em primeiro lugar, o permanente déficit comercial do segmento indica pouca capacidade de ampliar rapidamente a participação no mercado internacional, seja participando em uma cadeia global de valor, ou simplesmente competindo nos mercados internacionais. Em segundo lugar, para se colocar como empresa líder, que é a posição que se apropria dos maiores ganhos de especialização, a empresa tem de não apenas possuir recursos (capital e tecnologia) expressivos, mas ser capaz de antecipar as tendências tecnológicas do setor, isso é, inovar.

Dessa forma, políticas voltadas para o setor devem reconhecer os ganhos de especialização que cadeias globais de valor permitem, em vez de adotar políticas autárquicas de autossuficiência a qualquer custo (sempre respeitando a diversidade do segmento). A partir daí, devem procurar capacitar as empresas nacionais a assumirem o papel de empresas líderes na construção de cadeias globais de valor regionais, envolvendo a América Latina e talvez alguns países africanos, de modo a desenvolver sua capacitação tecnológica e financeira, assim como seu dinamismo inovador, visando a voos mais ambiciosos no mercado internacional no futuro.

 

Autor: Ronaldo Fiani | Professor do Instituto de Economia da UFRJ

Revista Facto | Jan-Abr 2022 | Edição 68