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Especial COVID-19

COVID-19 E SEUS EFEITOS NA CADEIA PRODUTIVA FARMACÊUTICA BRASILEIRA

Uma oportunidade de reflexão para o País. É assim que executivos da indústria farmacêutica nacional avaliam a pandemia de covid-19, que colocou em evidência a dependência brasileira de insumos importados para a produção de medicamentos, situação decorrente de um processo de corrosão do parque farmoquímico instalado.

Em recente coletiva na China, o vice-ministro da Indústria e Tecnologia da Informação daquele país, Xin Guobin, disse que a operação de empresas farmacêuticas de vitaminas, antibióticos, antipiréticos e analgésicos voltaram ao normal e a retomada da produção dos principais medicamentos estava acima de 80%. Afirmou também que o país vem fazendo reiterados esforços para manter normais os níveis de produção de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) para atender à demanda internacional. Xin Guobin garantiu inclusive o suprimento de fosfato de cloroquina, ressaltando que pode aumentar a produção dessa substância caso necessário.

Para alguns executivos da indústria, no entanto, é preciso atenção. O CEO da Globe Química, Antonio Carlos Teixeira, afirma que algumas empresas farmacêuticas no Brasil têm questionado a Globe quanto à disponibilidade de itens fabricados pela empresa. “E isso pode indicar falta de IFAs no mercado internacional”. Outro ponto levantado por Teixeira é a logística. “Com a suspensão dos voos de passageiros, que usavam seus porões de carga para transportar mercadorias, o frete disparou, com o quilo pulando de US$ 3 para US$ 9. O transporte aéreo tornou-se escasso e caro”.

O diretor-superintendente da ITF Chemical, Leôncio Cunha, concorda: “A logística é um problema. Além dos preços da tonelada por via marítima terem sido muito majorados – saltaram de US$ 4 para US$ 16 –, existe a necessidade da regularização da situação dos portos, que estão assoberbados”.

Outro aspecto relevante é que a China passou a adotar uma legislação ambiental rigorosa. “O impacto foi muito grande”, frisa Marcus Soalheiro Cruz, vice-presidente da Nortec Química. “Diversas plantas ficaram fechadas por um ano. Das 4 mil fábricas, muitas mudaram de local e boa parte simplesmente fechou, sobrando atualmente as 1,5 mil que o ministro citou”.

Esse movimento incrementou de forma significativa a interdependência entre China e Índia e provocou uma reorganização da cadeia produtiva interna da primeira, com impactos nos prazos e preços das exportações chinesas e consequências no mercado farmacêutico global. Segundo Teixeira, da Globe, os chineses passaram aos indianos as etapas mais danosas ao meio ambiente. “O resultado é que hoje a China depende de insumos produzidos na Índia e, dessa forma, se estes não fabricarem, não haverá a produção pela China”. Ele não tem dúvidas de que o compromisso dos chineses com o abastecimento mundial é real e que o empenho será absoluto, mas acredita que, em tempos de pandemia e demanda extrema, a capacidade produtiva do país asiático será colocada em cheque.

Esse cenário de incerteza traz à tona reflexões sobre a situação do Brasil e sua capacidade de atendimento à população, na medida em que o País importa boa parte do que consome – e somente a China responde por 30% do total importado. “Após a penicilina, fomos ficando para trás”, lamenta Soalheiro, da Nortec. “Perdemos o bonde. Não acompanhamos as novidades, desde sulfas à química avançada. E hoje temos um buraco enorme entre as indústrias petroquímicas, as de química de base e a farmoquímica”, pontua.

Para Teixeira, a globalização naturalmente levou à busca da economia proporcionada pela escala, o que permitiu a redução de custos e certa universalização dos medicamentos. “Contudo, esta pandemia evidenciou o preço do desmonte dos parques industriais nacionais”, afirma. “Os princípios de economicidade devem ser considerados, mas não podemos deixar de lado o que é essencial e estratégico, diante do risco de desabastecimento em crises mundiais”.

O superintendente da ITF, Leôncio Cunha, acredita que a lição que fica desta pandemia é a necessidade de os empresários do setor se unirem e baterem à porta do governo e do Congresso. “Nosso segmento é estratégico. Temos que promover um debate que leve a sociedade a refletir sobre esse cenário. O País não pode continuar nesse processo de eterna dependência”.

Por Fernando de Moraes

 

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